Bom ínicio de aulas meninas, Raquel acenou com a cabeça , fazia gestos que para nós ainda era dificil de entender, mas estes eram bruscos, como se estivesse a dizer algo ofensivo, mas ao mesmo tempo algo sereno.
Entrou na aula cabisbaixa, não olhou para ninguém, sentou-se no fundo da sala, e fomos cumprimentar o resto da turma. Todos olhavam para ela, mas ela sentada, debruçada sobre si, não falava. Tinha cerca de dois meses que Raquel já não falava, não emitia qualquer som, nem quando se ria. O médico dizia que estava tudo bem, que não era problema "físico", que ela iria falar quando chegasse a altura certa e se sentisse preparada. A professora chegou e senta-mo-nos ao pé dela. « Preparada? » , ela acenou com a cabeça.
" Bom dia meninos, espero que estejam preparados para um novo ano lectivo. Sabem que este ano têm que dar tudo por tudo. O meu nome é Sofia, e vou ser vossa directora. Agora gostava que se apresentassem. (...)
Quando se chegou a vez de Raquel ela não disse nada. Olhou para a professora que a pediu para apresentar mas ela baixou a cabeça. Com linguagem gestual escreveu Raquel e ficou parada. A professora pediu desculpa e perguntou se ela ouvia e ela assentiu com a cabeça, e voltou a interroga-la se sabia falar ou se não tinha aprendido, e ela acenou com a cabeça de novo. Então porque não falas connosco, tens vergonha? Raquel baixou a cabeça. « Senhora, é uma longa história depois conta-mo-la, até porque todos nós sabemos que ela não irá falar nem tão cedo desde... Bem depois explicamos tudo! » e após mais umas trocas de conversas, sairam da sala. Nós ficamos lá e explicados tudo a à directora, que ela tinha sido sequestrada, tinha passado quase uma semana sem comer comida apropriada e que fora estuprada e que desde então estava em acompanhamentos, mas que nada resolvia, que ela tinha-se fechado sobre si, que não falava, e que até esta era das primeiras vezes que saia de casa. Os pais não acreditavam que aquilo estava a acontecer e faziam de tudo para que ela se sentisse bem. A professora ouviu e tentou compreender tudo. (...)
Chegou-se ao Natal, Raquel não tinha falado, já não cantava nem era a mesma de antes, sentíamos saudades dela, da alegria que ela trazia, das brincadeiras... Agora limitava-se a ficar imóvel no sitio, rir-se por vezes das nossas brincadeiras, mas sempre sem soltar um som.
Quem olhava para ela antes, uma rapariga bem disposta, faladora, que cantava sempre que a apetecia, que chegava a escola, mesmo mal disposta, mas sempre com um sorriso para oferecer, olhava para aquela miúda, imóvel, dobrada sobre si, sem fala ou quase sem vida e estranhava.
Tentávamos que ela falasse, dizíamos que estaríamos sempre a seu lado, que tínhamos saudades da sua voz, mas nada ela dizia ; Tivemos que aprender a sua linguagem gestual, os seus gestos. Tivemos que a proteger do que diziam, que estava somente a "fazer filmes, a ser coitadinha", mas nós sabíamos como ela estava a lidar e o que realmente se estava a passar.
Raquel ia para psicólogos, terapeutas, psiquiatras, tudo o que os pais conseguiam a fazer ir, mas nada a mudava. Ela não se importava com o que vestia, como estava, ( pensar que ela antes não saia sem maquilhagem ou sem estar com a roupa certa... ) ela desiludiu-se, estava a sofrer intensamente, mas sem nunca querer dizer a ninguém, sem nunca chorar, sem mostrar como realmente estava. Pensando bem, ela já era assim, só que mais viva...Os meses passaram e Raquel continuara igual, tinha um desenvolvimento e redimento escolar não tanto negativo, mas nada como antes. Estávamos de certo preocupados.
Os pais antes zangavam-se com ela por ela nunca estar em casa, agora, eles até nos ligavam para a tirarmos do seu quarto.
No final do ano lectivo, após ela ter passado os exames, os testes, e saber que era provável passar, ela sentia-se mais alegre, só que notávamos sempre que os seus olhos eram escuros e tristes, por mais que ela sorri-se os seus olhos não sorriam, ficavam imunes à alegria, e de certo como se diz que os olhos são os espelhos da alma, a sua alma devia estar exactamente como a cor dos olhos, escuros, intensos de sentimentos de revolta, revolta porque ela de certa forma mostrava uma postura revoltada sobre si.
Por vezes pensávamos no que ela poderia estar a sentir, por vezes tentávamos alegra-la com boas notícias, com piadas, como antes, mas ela não se deixava contagiar pela alegria... Também, falando concretamente, se fosse com algum de nós, se passássemos o que ela passou, tentaria fazer o mesmo que ela, suicidar-me isolar-me, desprezar-me... (...)
O mês passado, dias antes da escola acabar, e de começar o Verão, estávamos todos empolgados e a combinar novas saídas, aventuras veraneias, a sorrir e ansiosos pelo fim. Raquel não demonstrava entusiasmo. Estava ansiosa não pelas festas, e divertimento, mas pela escola acabar e ir para casa.
Lembro-me bem, que estávamos a fazer um ensaio geral da festa final, a combinar o baile de finalistas, a preparar os enfeites e as partidas, a cantar, tocar e rir e Raquel demonstrava-se mais encorajada com o que se passava ao seu redor.
No dia em que fazia um ano e meio, Raquel sentia-se deprimida, mesmo sem falar compreendíamos, conseguíamos ver, ela estava mais desanimada do que nunca... Mas nunca iríamos pensar que ela fizesse o que fez... Portanto, estávamos todos sentados no auditório, o secundário, e a Carla estava a cantar, eu, a Joana, Rita, Ana estavam a dançar entusiasmadas, uns falavam, riam-se e tudo mais...a alegria estava precisamente naquela divisão da escola, estávamos todos a espera da professora para prepararmos o baile. Raquel estava sentada no seu canto de auscultadores nos ouvidos e olhou para nós, levantou-se, chegou-se ao pé de Carla e fez um gesto para cantar, esta passou-lhe o microfone e ficamos todos a olhar para ela, surpreendidos, será que era desta vez que Ela iria conseguir, iria quebrar as suas paredes tão bem conservadas? Ficamos todos perplexos mas cheios de esperança por ela.
Ela tentava falar, mesmo ouvia-se pequenos sons da sua boca que aumentavam com o microfone, mas não dava apara entender o que estava a dizer... Foi então que Carla segurou-a a mão e disse « Tu consegues Raquel, todos nós te apoiamos, força miúda! Liberta-te, tu mereces ! » , Raquel fez um gesto para o piano e acenou com a cabeça e respirou fundo... Estava tudo parado. a divisão que antes era pura alegria, ficou atónita e silenciosa de um momento para o outro. Todos esperavam por voltar a ouvir a voz dela, todos tinha a esperança de presenciar a saída da " SilentGirl " ( como a tratavam) do seu próprio mundo... O seu refúgio.
Raquel, começou a tocar notas no piano, olhou para cima e podíamos ver as suas primeiras lágrimas a cair, sim mesmo as primeiras, ninguém antes a tinha visto chorar, ela não chorava, não sentia e não falava há um ano e meio. Era aquele o seu momento...
Foi então que começou a cantar, uma voz que já nem nos lembrávamos, o quão doce ela conseguia ser, uma música mesmo apropriada a ela. Devo confessar que nós chorávamos, as saudades daquela miúda eram tantas, e ela estava ali, a miúda frágil que conhecíamos quando cantava, aquela voz calma mas compassada, aquela emoção a sair com as notas, as lágrimas, foi tudo perfeito. As pessoas de fora inéditas com aquela voz vieram ver tudo, o auditório estava cheio de gente apoiantes, de professores que ficaram de certo boquiabertos pois pensavam que ela nem falava. Mas Raquel parou de cantar... As suas lágrimas superaram a sua voz e a sua respiração, todos batiam palmas e diziam o quão forte e grande era aquela pequena menina de 17 anos que tinham um peso nos seus ombros como uma mulher adulta.(...)
Raquel fugiu, sentou-se nas escadas e enrolada balanceava, chorava e soluçava, nós de roda dela só percebíamos " Tirem-me daqui ; Deixem-me ; Não podia ter falado, eles disseram para nunca mais falar e eu falei; Quero ir-me embora, deixem-me ir ; Deixei-me da mão! " , todos queriam saber o que ela dizia, mas aquela multidão só a alterava cada vez mais, começou a puxar a roupa bruscamente, depois começou com as unas a arranhar-se e quando nós a tentávamos impedir, ela gritava sempre a mesma conversa. Carla, uma das suas melhores amigas, tentou a acalmar, abraçava-a e chorava com ela, estávamos todos emocionados. Até que de súbito ela parou. A lágrimas como de magia pararam de cair, os seus olhos que antes brilhavam voltaram a ficar escuros e sombrios, as suas mãos que tremiam consequentemente caíram no chão arranhadas pelas unhas. Ela olhou para a Carla e disse baixinho , " Eu amo-te, obrigada por tudo o que fazes por mim ! Nunca me esquecerei de vocês ! Serão sempre lembrados! "... E por mais absurdo que pareça, Raquel desmaiou, foi levada para o hospital, sem mais pronunciar , sem mais sorrir, sem se mexer, ficou inédita e paralisada na cama do hospital... Este encheu-se de visitas de flores, de cartões, cartolinas, de peluches e não havia uma hora de visita que nós não aparecêssemos só para a dizer "Olá"... Após uma semana internada, Raquel suicidou-se.
Há dois dias, viemos a saber que morreu de overdose, que ainda a tentaram salvar, mas ela não tinha vontade de viver. Teve um funeral digno de uma rapariga honrada, com muita gente, flores, com lágrimas mas também sorrisos, que principalmente era isso que ela queria. Que fosse felizes como ela não teve a sorte de o ser...
Por isso, posso tirar uma lição da minha amiga Raquel, uma miúda que eu amava, que eu dava-me super bem, que há um ano e meio, andava pela escola a saltitar, a rir, a gozar, a cantar alegremente... Que era o meu ídolo...
« Vive a vida como se o amanhã não existisse, pois tu não sabes o que acontecerá amanhã. Poderá te acontecer algo bom quer te faça delirar, como algo mau que te faça querer morrer. Mas antes de pensares que tudo está perdido, que não há razões para viveres, que não tens forças, encontra todas as forças possíveis e verás que tudo se resolverá... Quem sabe se algo assim não pode acontecer contigo...»


