Desliguei o telefone. Caiu-me as forças, sentei-me no chão e comecei a chorar. Nem tinha forças para falar, não sabia o que dizer, nem pensar, nem nada. Só chorava e chorava. Meu pai, que estava a subir as escadas veio ter comigo. " filha, que tens? quem era ao telefone? ". Não sabia como o dizer, não o queria decepcionar, não o queria ver a sofrer, por isso chorava ainda mais. Tentava arranjar forças, mas não as tinha... " pai, era do hospital, já tem os meus resultados..." e soluçava de tal maneira que mal se percebia o que dizia. " e então filha que tens? É assim tão mau? Tudo se vai resolver!" , " pai... Eles querem que vá amanha para baixo, para fazerem exames... Acham que tenho cancro..." , " Enh? Não é possivel! Como tal foi acontecer? Era só uma dor de barriga, uma dor muscular! Que vamos fazer? Tua mae, já a disseste? " , "não. não sei onde esta ela. eu não sei de nada. não quero isto, não pedi isto! ", gritava eu. Meu pai, para nao ver que estava a chorar, saiu da sala. e eu continuei lá... minha mae veio falar comigo a dizer como tudo se ia resolver mas eu nem quis ouvir! (...)
Como as vou contar? Como vou dizer que vou morrer? só pensava nisso, nas minhas amigas, em como tinha que ganhar coragem e ter força e não conseguia.
Que noite... Nem sei como tive coragem de encarar o novo dia. Mas fui á piscina, determinada a falar com as pessoas que importam para mim, a minha força.(...)
Estavam na água. E eu sorri, baixei a cabeça e segui em frente. sentei-me a ver o mar e as lágrimas cairão sem eu as puder parar. Ao olhar para o horizonte pensava em como era tão nova, tinha tanto para aprender, tanto para conhecer e ver.
A Suzie vei ter comigo... " Que tens amor? É por causa do João? " , " Não." , " Oh que se passa? Porque choras? Não chores! " . Eu não sabia como a dizer, como falar sobre o assunto sequer... " Achas me bonita? ", " Que conversa MJ ! tu és linda! ", " Achavas-me bonita sem cabelo? " , " Oh tas parva? Que te está a dar, vais cortar o cabelo? " . " Não." , " MJ estás a me assustar! " , " Desculpa, mas eu estou assustada, não sei o que fazer..." , " Podes começar por parar de chorar e dizer essas coisas parvas amor! " (...)
E todos rodeavam-me para saber o que se passava, porque não falava, porque estava a chorar e que conversa era aquela.
Até que parei de chorar e murmurei... " Eu... Ligaram-me ontem a dizer para ir amanhã á cidade que precisavam de fazer alguns teste comigo e..." " TESTES?! Que testes?!" , " Foi-me detectado uma anomalia no sangue e acham que pode ser leucemia." , " O que? Estás a gozar? " , " Não. Achas que o que me apetece fazer agora é gozar? Eu não tenho forças, não tenho coragem para enfrentar isto agora. Tenho sim, medo, dor, angústia, sofrimento! Sabem... sofrimento! "
" Pronto MJ, acalma-te vais ver que tudo vai correr bem, que a anomalia é só sangue grosso ou algo assim, que não é o que estás a pensar! " (...)
Tantas palavras de força e companheirismo me disseram, mas nunca foi suficiente para apagar com as mágoas. E chegou-se ao dia dos resultados. Era leucemia e nada podiam fazer se não ajudar a não alastrar.
" A pessoa por quem espero, só irá me encontrar quando tiver partido. Como se pode esperar por alguém que nunca mais volta?". Bem, não sabia como responder aquilo, mas ele tinha razão. " Não deves. Deves procurar e encontrar e esperar por alguém que sabes que estará presente agora. Não esperar que as pessoas sigam em frente por ti. " , de certo nunca tiveram a coragem para te dizer isto porque olhaste-me como quem está a pensar « não te metas na minha vida », mas nesse teu olhar eu vi raiva, eu vi desilusão e um vazio...
Não aguento ver pessoas assim tão tristes que têm a sua vida toda pela frente, que podem conhecer o mundo, que podem ainda ser felizes! Que cometem erros, que podem amar, que conseguem sentir-se livres... Por isso disse-te tudo isto e tu pediste desculpa e começas-te a chorar.
" Estás doente?" , abanaste com a cabeça... " Não...", " Então que fazes aqui? ", " Não sei. Venho aqui para me relembrar da Cristina, do quanto me sentia importante ao seu lado. Da nossa felicidade" . " Ah é a tua namorada? " . " Ela morreu." . " O que? Já? Nem sabia, pensei que a tivessem transferido de área ou tivesse melhorado! ". Abanaste com a cabeça de novo, e só dizias, ela morreu. Percebi a tua infelicidade... Eu gostava muito da Cris, ela era optimista e jovem, tinha a minha idade, passávamos a quimo sempre a falar, de moda, de TV, de rapazes, de tanta coisa, era um incentivo de certo aquela miúda. E fez-se silêncio. O relógio parecia nunca mais andar...
" Ela não é minha namorada. É minha irmã. Eu perdi a pessoa que mais amo no mundo. Eu perdi-me."
[ Continua . ]
