Subiu o pano. Lá estava eu. Sem saber o guião, sem saber as marcas, as falas, nem sequer sabia a minha personagem. Contudo, lá estava eu. Sem vontade de avançar, de dizer sequer alguma coisa. Com tudo a passar diante de mim percebi-me que era alguém naquela vida. Alguém importante, pensava eu...Pensava. Aparentava ser só uma figurante naquela suposta peça romântica sem fim. Comecei como figurante. Ainda sem saber que personagem me tornava, já sabia que era figurante daquela peça, que não era a minha. Já era algo, pensava, já faz a diferença na vida da pessoa! Faria?! Com o passar do tempo, as coisas iam a desenvolver-se, ia-me tornando ambientada, familiarizada. Estava a gostar. Haviam já personagens primárias. Ainda não era sequer secundária. A distancia com a ele ainda era longe.Mas eu já sonhava com a marca do guião da nossa aproximação. Já queria, desejava, imaginava! Sempre por detrás do acontecimento principal. Ainda como figurante. E assim continuou toda a peça. Peça interminável - pensava. Já sabia que não estava destinada a ficar com ele. Eu era figurante, ele principal. Não parece haver misturas. Porém, a luz dos holofotes caiu sobre mim. Era a minha fala. Que iria dizer?! Fiquei calada, não tinha o guião! Sorri. Pensei que se sorri-se iriam perceber que eu desejava, mas que sabia que não iria resultar. Ele aproximou-se de mim. De repente senti a sua mão a tocar na minha e a sussurrar para mim, mas não sabia o que era, a musica não deixava. Alguém agarrou-o e puxou-o. Tirou-o de mim. Eu ainda gritei « Não! Fica comigo! Eu preciso de ti!» Mas já era tarde. A distancia separou-nos. Por um momento fui papel primário. Gostei. Mas era figurante. E lá no fundo, no meu canto, sem que ninguém reparasse algo caiu da minha cara. Não estava no guião - pensei. Mas aconteceu. Estava a sentir algo por dentro. Sentimentos. Mas via-o feliz. Limpei as lágrimas e voltei para o meu lugar daquela, agora, estúpida peça. Só queria sair dali. Morrer para ele. Ele não deixava. Passou tanto tempo, que já nem sabia o que era a luz do holofote. Era só alguém conhecida, nada de mais. De súbito voltou a luz. É o fim? - pensei. Mas não era. Era de novo aquela luz da tapete vermelho. A luz principal. Lá estava ele. De novo a mão, o sussurro, mas desta vez eu ouvi. Foram as mais lindas palavras que me podiam dizer. « Nem sempre fui verdadeiro, mas contigo eu estou a ser. Acabou-se a distancia. Tu és a principal! » Fiquei estupefacta! Sorri. Sim, fui um bocado zen. Mas esperava por aquele momento há tanto tempo que só soube sorrir. « amo-te!» . Amas-me?! Mesmo?! - sim eu gritei. « Sim! Desculpa!» Então (aleluia) fez-se luz. Tu! - voltei a gritar. - Esperei por ti desde que abriu-se o pano. Chorei. Sorri , mas nunca disse uma palavra do quanto significas para mim! Do tão bom que é ter-te a falar comigo, porque a tua vida não era a minha. É a tua peça. E agora de súbito, lembraste de mim? Uma figurante. Nada mais nada menos. « Nunca foste figurante. Só pensavas que eras. Desde que começamos a falar, és das melhores principais da minha peça. Fica comigo! Acaba a peça comigo. Juntos!» - Queres Mesmo? « Mais do que nada!» . A peça acabou. O pano caiu. A luz apagou-se. Eu já sei o meu papel. Sou a principal. Estava feliz de novo. Ele pus-me feliz de novo. Feliz?! Não sei se era isso. Era um sentimento tão bom. Acordei. Olhei em volta. Já não estava num palco. Estava sim na minha cama. Não estavas cá. Nunca estiveste. Estou triste. Onde estás tu afinal?!
